Ainda Estou Aqui: maior que qualquer Oscar
- Monica March
- 3 de mar. de 2025
- 2 min de leitura
"Eu ainda estou aqui." Esta frase, que dá título ao comovente filme de Walter Salles baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, filho de Eunice, ecoa em minha mente enquanto reflito sobre o que significa persistir por meio das palavras. A obra, coroada com o Oscar de Melhor Filme Internacional (o primeiro Oscar dado a uma obra brasileira), narra a história de Eunice Paiva e sua luta para manter viva a memória do marido desaparecido durante a ditadura militar brasileira — um reconhecimento que nos ajuda a não esquecer e a não deixar que tais horrores voltem a acontecer.
Escrever é declarar presença. É dizer ao mundo: estou aqui, minha voz importa, minha história merece ser contada. Quando nos sentamos para escrever, estamos lutando contra o esquecimento — esse apagamento que o tempo nos impõe.
No filme, acompanhamos Eunice enfrentando não apenas a perda do marido, mas também a gradual perda de si mesma para o Alzheimer. É nesse contexto que a frase título ganha camadas mais profundas de significado. Mesmo quando a memória falha, algo permanece. Meu processo de escrita tem sido marcado por essa mesma resistência. Cada livro, cada poema que publico, cada história que conto é uma forma de dizer: estou aqui, observando, sentindo, processando o mundo através da minha perspectiva única.
A escrita, assim como as memórias de Eunice no filme, nem sempre segue uma linha cronológica perfeita. Há fragmentos, saltos, momentos de clareza cristalina intercalados com névoas. Meu próprio processo criativo reflete essa natureza não-linear da memória. As histórias raramente vêm completas; elas surgem em pedaços que, aos poucos, vão encontrando seu lugar na narrativa maior.
O que me tocou profundamente nessa obra totalmente premiada foi a persistência da identidade, mesmo diante da perda gradual da memória. Isso me lembra que, como escritores, não precisamos ter todas as respostas. O importante é a honestidade do momento, a verdade emocional que conseguimos capturar entre as palavras.
Quando escrevo, não procuro apenas contar histórias — busco preservar sentimentos, capturar a essência fugaz de momentos que, de outra forma, se perderiam. É um trabalho de arqueologia interior, de escavação cuidadosa em busca daquilo que permanece quando tudo mais se vai.

O filme nos lembra que a memória é também um ato político. Lembrar-se, registrar, documentar — são formas de resistência contra forças que prefeririam nosso silêncio. O reconhecimento internacional através do Oscar amplifica essa memória coletiva, esse compromisso com a verdade histórica. Na minha escrita, tento honrar essa dimensão, reconhecendo que contar histórias é também um modo de manter viva nossa humanidade compartilhada e de garantir que o passado não se repita.
Como escritora, tento carregar esse mesmo espírito em cada texto que produzo. Mesmo quando as palavras parecem escassas, mesmo quando as histórias se tornam difíceis de contar, continuo escrevendo. Porque no ato de escrever, renovamos nosso pacto com a vida, com a memória, com o tempo.
Escrever é dizer, apesar de tudo, apesar da fragilidade dos momentos, apesar da certeza do esquecimento: "Ainda estou aqui."
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