A ficção é um lugar assustadoramente honesto
- Monica March
- 7 de jan.
- 2 min de leitura

A decisão mais difícil de 2025 foi silenciosa. Uma admissão feita enquanto eu encarava um cursor piscando numa tela branca: eu precisava parar de me esconder atrás dos fatos. Ficção é um lugar assustadoramente honesto.
Durante muito tempo, a não-ficção foi meu escudo. Escrever sobre a realidade, sobre o tangível, oferece uma proteção confortável. Se alguém discorda, você aponta para os dados. Se alguém critica, você aponta para a lógica. A realidade se justifica sozinha.
Mas havia algo pulsando dentro das pastas esquecidas do meu computador. Arquivos com nomes aleatórios (rascunho_da_madrugada.doc, ideia_sem_pé_nem_cabeça.txt) que eu evitava abrir, do mesmo jeito que a gente evita olhar direto pro sol.
Abrindo esses arquivos, eu entendi o motivo do medo. Ficção, eu descobri tarde demais, é um terreno assustadoramente honesto. Na não-ficção, a gente edita a vida pra que ela faça sentido. Na ficção, a mentira serve apenas para revelar as verdades que a gente não tem coragem de dizer no almoço de domingo.
Revisitar essas pastas foi como entrar num apartamento antigo que eu não lembrava de ter alugado. Poeira, sim. Mas também uma arquitetura emocional que eu tinha negligenciado. Personagens gritando coisas que eu sentia, mas que eu jamais teria a coragem de assinar com meu nome verdadeiro.
Escrever sobre "sentimentos" é dissecar a experiência humana sem a anestesia da objetividade jornalística. Entrar na água fria.
Estou organizando esses fragmentos. Costurando essas vozes que encontrei nos arquivos mortos do meu disco rígido. O que está surgindo é algo diferente de tudo que publiquei até agora. O que poderia ter acontecido se tivéssemos sido mais corajosos. Ou mais imprudentes.
Publicar aqui de novo é meu compromisso público de não recuar pra a segurança dos fatos. A partir de agora, a gente vai falar sobre o que é inventado, porque, paradoxalmente, é ali que eu tenho sido mais honesta.
Ficção assusta porque não pede desculpas. E eu também não vou.



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